Sempre achei babaca a teoria de Freud a respeito do desenvolvimento humano. Embora trate em aspectos diferentes, eu sempre fui mais pelo Piaget. Não tenho grande conhecimento do estudo da psique, mas quando estudei Piaget as coisas pareceram fazer mais sentido, talvez porque eu enxergue que em cada fase da vida os seus interesses estão voltados para algo. Nunca quis ser adulta quando era criança, nem hoje quero voltar a ser criança, os privilégios dos meus 24 anos nem se comparam à submissa vontade de uma criança que pode no máximo escolher com qual boneca brincar.
Como dizia, sempre achei a teoria de Freud babaca e pensava: como ele pode enquadrar todo e qualquer ser humano na fase genital? Ele acha que é isso mesmo o centro das nossas ações? E aquela história da fase fálica, em que a criança concentra o seu prazer nas descobertas e mistérios do seu aparelho sexual? E ainda mais, e a brilhante teoria de que a menina é uma pessoa que não tem pênis e por isso ela sente-se incompleta e em desvantagem para um garoto?
Tudo isso parecia bobagem até perceber que o que toda mulher quer é um pênis. Não importa como estão as coisas na sua vida e quais são os seus méritos, você conquista pontos com as outras mulheres se você já adquiriu seu pênis. Não o órgão propriamente dito, ninguém carrega um na bolsa ou faz um anel de pênis, penso eu. Mas é quase isso que carregar uma aliança de compromisso significa: eu tenho, eu consegui, uau! Namorar, noivar, casar e viver felizes e entediantes para sempre está para a mulher assim como um carro novo, promoção no emprego e estabilidade econômica está para um homem. Existem pessoas que eu considerava amigas, mas que o assunto não passa mais do que este, se você não adquiriu seu pênis, não importa o que você faça, você é uma coitada.

As que têm um pênis se vangloriam sobre as que não tem: “graças a Deus não preciso mais me preocupar com isso!”. As que não têm, não conseguem enxergar outras vitórias em sua vida, pois elas não carregam no peito a medalha de ouro de “consegui um pênis”. O texto parece denotar que me baseio na minha pequena noção de mundo, mas não parece que a questão é um sem fim de garotas que eu conheça que passaram por sérias frustrações na fase fálica. Não são garotas, não são minhas amigas, são mulheres de toda e qualquer idade que eu já tenha visto e observado, inclusive as que roubam pênis alheio na esperança de poder apropriar-se dele um dia.
Nenhuma mulher quer ser aquela que levava uma paulada na cabeça e era arrastada no chão pelo marido até em casa. Nenhuma quer ser este clichê de era da pedra, igual víamos nos desenhos animados. Mas a diferença entre o clichê e a realidade é que as pessoas floreiam a realidade: não é uma paulada, é uma troca de alianças; não é ser arrastada no chão, é ser conduzida por um companheiro.
E não, eu não detesto relacionamentos. E também não, eu não sou lésbica ou traumatizada. A questão é que eu existo e eu faço acontecer sem um pênis, eu não sou incompleta, e as minhas vitórias são minhas, se alguém quiser alegrar-se comigo e estar ao meu lado na estrada, será bem vindo. Mas estar comigo na estrada é estar ao meu lado, não é ser minha estrada, ser meu carro ou o meu destino. Também não sou uma meia laranja procurando sua metade, uma meia laranja vai perdendo vitamina C para o ambiente até você consumi-la. Eu não estou perdendo nada, estou traçando a minha história.
Os sutiãs podem ter sido queimados, você ganhou direito a voto não faz muito tempo, e você é a dona do seu caminho. Você tem a locomoção, a estrada e o destino. Pergunto-me agora, com tanta conquista e inteligência, por que ainda age como se um pênis adquirido fosse a sua bússola?